sábado, 5 de agosto de 2017

[Resenha #44] Fahrenheit 451

Título original: Fahrenheit 451  

Autor: Ray Bradbury

Tradução: Cid Knipel

Editora: Biblioteca Azul (Editora Globo)

Edição: 2ª, 8ª reimpressão

Ano de publicação: 2016

216 páginas

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Valor: Amazon - Livraria Cultura - Saraiva - Submarino

Avaliação:



"Livros são muito perigosos. Eles fazem você pensar." 
  
Antônio Iturbe

Imagine uma sociedade em que os livros são proibidos. Mas não existe nenhuma lei que os proíba. Quem definiu isso foram os próprios membros desta sociedade, as massas. Aqueles que são apanhados com bibliotecas clandestinas são obrigados a ver seus livros se transformando em cinzas. Algumas vezes, os próprios donos das bibliotecas são queimados junto com o material. Não existem mais bibliotecas públicas, nem sebos e livrarias. Não existe mais clube do livro. Não existe mais conteúdo para conversas. Quase não existem mais conversas.

Então, conseguiu imaginar? Ray Bradbury não só conseguiu, como criou uma obra onde explora tal hipótese. Em seu livro intitulado Fahrenheit 451, os bombeiros não são mais os responsáveis por apagar incêndios. Agora, eles são as autoridades que destroem as bibliotecas clandestinas ateando fogo a elas. E é justamente esta a profissão de Guy Montag, protagonista da obra de Bradbury. 

Montag, além de não ver problema algum em sua ocupação, executa muito bem suas tarefas. Porém, certo dia, conheceu Clarisse, sua vizinha, e bastaram algumas conversas com a jovem sonhadora e esquisita para despertar algo nele. Não, não estou falando de romance. Me refiro a uma sementinha da dúvida que foi plantada e que estava prestes a desabrochar.

" (...) Deve haver alguma coisa nos livros, coisas que não podemos imaginar, para levar uma mulher a ficar numa casa em chamas; tem de haver alguma coisa. Ninguém se mata assim a troco de nada." (pág. 73)   

Durante o que deveria ser mais um dia normal de trabalho, Guy e seus companheiros são chamados para averiguar a denúncia de uma biblioteca clandestina. Ao chegarem ao local e encontrarem os livros, começam a incendiá-los. Apesar de advertida, a proprietária se recusa a sair e acaba sendo carbonizada. Esse episódio foi a gota d'água para o protagonista. O que poderia haver de tão perigoso nos livros a ponto de colocar a vida de quem os possui em risco? 

"(...) Aliás, Pete e eu sempre dissemos: nada de choro, nada disso. Já é o terceiro casamento para nós dois e somos independentes. O negócio é ser independente, sempre dissemos isso. Ele já disse: se eu for morto, siga em frente e não chore. Case-se novamente e não pense mais em mim."   
(pág. 121-122)

Fahrenheit 451 é um livro que incomoda pela quantidade de semelhanças que existem entre a sociedade ali representada e a sociedade na qual vivemos hoje. A televisão e outras mídias dominam os ambientes, as relações e os comportamentos das pessoas. Quase toda a interação é virtual e as relações são tão frias a ponto do próprio ser humano ter sido reduzido ao status de "coisa", podendo ser facilmente substituído. Os filhos são considerados maldições das quais as mães querem se ver livres, os enviando para internatos de onde saem apenas um dia por mês. Os diálogos são vazios, muitas vezes tratando-se da repetição de conversas que viram ou ouviram nos programas imbecilizantes que assistem nas telas ou escutam nas "rádio-conchas". Além disso os medicamentos para dormir passaram a ser consumidos por toda a população, que não quer mais ter preocupações e passou a viver anestesiada. 

"(...) Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?"  (pág. 78)

Obra que serviu de inspiração para vários autores de distopias modernos, Fahrenheit 451 deveria ser lida por todos os amantes da literatura. Mesmo tendo sido publicada originalmente em 1953, sua problemática se encaixa perfeitamente nos dias de hoje, mostrando uma sociedade onde as relações interpessoais são frias e facilmente descartáveis. Onde o consumo e o entretenimento são predominantes. Onde a ignorância é considerada uma bênção.

"(...) Encha as pessoas com dados incombustíveis, entupa-as tanto com 'fatos' que elas se sintam empanzinadas, mas absolutamente 'brilhantes' quanto a informações. Assim, elas imaginarão que estão pensando, terão uma sensação de movimento sem sair do lugar. E ficarão felizes, porque fatos dessa ordem não mudam. Não as coloque em terreno movediço, como filosofia ou sociologia, com que comparar suas experiências. Aí reside a melancolia."   (pág. 84)

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